A busca individual da justiça como fim coletivo

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A Humanidade tem buscado concretizar o ideal de Justiça desde os primórdios da sociedade. Os diversos registros históricos nos conduzem a certeza de que o sentimento de justiça sempre conviveu com o indivíduo e, desta forma, o ser humano, em sua saga evolutiva, buscou o justo como referência de comportamento.

Seja através dos oráculos, deuses, anciãos e, contemporaneamente, do ordenamento jurídico, o ser humano almeja uma resposta às suas inquietações. Percebemos, ao longo da história, que essa busca pelo justo convive com injustiças e que ainda hoje podemos perceber uma carência moral e ética com relação à operação da Justiça.

A humanidade foi testemunha de inúmeros crimes de lesa-justiça. Convivemos com escravidão, discriminações diversas, imperialismos, guerras e tantas outras formas de, sorrateiramente, mitigar o sentimento de justiça cravado no âmago do ser e tornar o injusto aceitável. Consternado, percebo a chaga aberta deixada após o flagelo diário e ininterrupto da injustiça.

Sob a alegação de atingir a justiça, buscamos resolver nossas demandas pessoais não importando o meio, mas o fim atingido: O meu Direito… Se estivessem vivos: Maquiavel, Platão e Kant; aquele ficaria bilionário com suas palestras motivacionais e condenaríamos ao degredo social os demais.

Esquecemos as bases da justiça. Platão ressaltava a importância do bem coletivo, pois o que era bom para a sociedade, seria para o indivíduo e quando o benefício individual fosse de encontro aos interesses da coletividade; prevaleceria o interesse social. Kant estrutura seu pensamento sobre a justiça a partir da universalidade do comportamento. Desta forma, o indivíduo agiria conforme uma lei que pudesse ser aplicada em quaisquer situações e para todos indiscriminadamente. O que aconteceu conosco? Desistimos da busca?

Entendo que a precária formação moral e ética tem sustentado esse individualismo exacerbado que se apoia na pretensa busca de direitos. Sendo a moral formadora do conteúdo da justiça, não se confundindo com ela, tendo em vista que a moral é mais abrangente por alcançar o ser na sua intimidade, a deficiência moral mitiga a revelação da justiça tornando-a deficiente. O sentimento de Justiça, atualmente, é sinônimo de indignação. É salutar a indignação acerca das injustiças humanas e sair às ruas para protestar, de forma democrática, é um direito assegurado a todos; o que não é aceitável é o comodismo pós-protesto e, na mesma medida, a disseminação do ódio gratuito.

A dignidade humana deve ser a pedra angular de quaisquer movimentos democráticos, pois a injustiça nasce do uso incorreto das liberdades democraticamente conquistadas. Almejar o avanço social deve ser objetivo precípuo do cidadão civilizado, sendo esse avanço o impulso necessário para o alcance de uma noção de justiça mais próxima do ideal. Aristóteles considerava a Justiça como “a virtude das virtudes” um ente imortal, transcendental, não alcançável pela razão humana. Porém, não podemos alegar nossa falibilidade, creditarmos a uma mediocridade existencial a culpa pelos nossos desmandos.

Devemos emergir do senso comum para ingressarmos na seara evolutiva, que contempla seres críticos em busca do aprimoramento das relações sociais. Sair do comodismo social e ser promovido de revoltado a revolucionário exige o exercício diuturno da reflexão para adquirir uma visão do todo em detrimento de individualidades pífias e a consciência irrefutável de que o direito individual deve estar alinhado com o coletivo, entendendo este como a soma das individualidades. Desta forma, superaremos a miopia comportamental, desnudaremos a hipocrisia e derrubaremos o despotismo midiático responsável pelo comércio de inverdades revestidas de pequenas doses de verdades relativas.

Uma sociedade regida por injustiça padecerá das enfermidades que ela própria criou, por isso, a humanidade precisa despertar dessa hibernação intelectual e voltar a participar da Ágora, que saiu da praça e migrou para as redes sociais, com autoridade; pois o caminho da justiça se faz com participação ativa e reflexão perpétua acerca do bem coletivo. Deixemos as críticas rasteiras de lado, tendo em vista que apenas tornam a opinião pública deplorável e motivo de chicalha por parte dos “intelectuais”. Quem conhece a sociedade com propriedade é o povo. E povo strictu sensu. Legitimado nato por vivenciar as mazelas da injustiça.

Autor:

Márcio de Carvalho Martins

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